No dia 31 de março foi celebrado os cinquenta anos do golpe militar ocorrido em 1964. Este dia ficará, ou deveria ficar, na memória dos brasileiros como o dia em que foi usurpada sua liberdade. O golpe fora planejado com grande antecedência, embora tenha sido realizado de forma desorganizada. Mas seu sucesso se dá por causa da falta de participação popular na política. O Brasil vivenciava um governo insosso e sem presença a ser sentida pelo povo. Este motivo foi a brecha para os militares insatisfeitos com sua posição no governo. Depois de instalado, o golpe caiu nas graças da população, aceitando-o prontamente, sem um questionamento sequer. Em virtude de tudo isso, corremos o sério risco de deixarmos esse acontecimento nas sombras do esquecimento.

O governo João Goulart tinha como cenário popular uma anêmica participação política. O próprio governo não se fazia presente, pois, quando se faz sentir na população, é difícil que caia no esquecimento. Com inúmeras brechas no governo Jango, foi fácil para os milicos conspirarem uma revolução. Mas o argumento ou pretexto chave para o início da revolução era a ‘ameaça comunista’, pois João Goulart estava se aproximando politicamente da China Popular e isso deixara os militares receosos quanto ao futuro do Brasil e descrentes quanto à figura do presidente. E no amanhecer de 31 de março de 1964 tanques e soldados nas ruas prontos para uma guerra. Está instalada a era de chumbo brasileira.

Com o desinteresse e a falta de informação, os brasileiros aceitaram sem pestanejar o novo governo que se instalara. Para eles era a melhor saída, pois, para afastar o demônio comunista do Brasil, nada melhor do que fardas repletas de insígnias de ‘honra ao mérito’ para defendê-los. E então os generais-presidentes tiveram fácil acesso às casas dos brasileiros e também a seus corações, pois eles seriam o ‘futuro da nação’, o progresso tão esperado e tão demorado.

Após cinquenta anos de golpe, corre-se o risco de tudo isso que aconteceu cair no esquecimento. E foi justamente o elemento esquecimento que fez a ditadura instalar-se. Pois os brasileiros, alguns anos antes do golpe de 64, viveram a ditadura getulista. E hoje, quando se fala em ditadura militar no Brasil, existe uma indiferença quanto ao assunto. Indiferença que apaga os sofrimentos de quem foi perseguido; de quem teve que deixar a pátria e se tornar um estrangeiro; ou então de quem teve que se calar em prol de sua vida ou da de outros.

A revista Veja do dia 26 de março de 2014 traz uma reportagem especial sobre o golpe militar brasileiro. Em linhas gerais, podemos perceber semelhanças entre a época do golpe e os dias de hoje. Primeiramente a indiferença do povo quanto à política. Tanto antes quanto hoje é latente a aversão popular em relação a temas políticos, o que na época do golpe facilitou para a ditadura se instalar. Também existia e ainda existe a pronta aceitação popular, pois, hoje, temas como corrupção e desvio de verbas públicas não nos constrangem, tampouco nos indignam, da mesma forma que militares no poder e a derrubada de um governante escolhido pelo povo não incomodaram a sociedade da década de sessenta. Todas essas semelhanças deveriam ser sinais de alerta quanto ao esquecimento dos anos de chumbo e à vulnerabilidade política do povo, pois nos aparecem novas formas de ditaduras, não aquela com uniformes bem alinhados e rufados de condecorações. Mas outras com um populismo barato, na qual se oferece uma ninharia para os mais necessitados, ou a ditadura da beleza na qual todos têm que ter o mesmo padrão estético, dentre outras.

Portanto, no dia 31 de março devemos recordar o que há cinquenta anos nossa nação enfrentou, mas com os olhos no presente, pois vivenciamos várias ditaduras, que da mesma forma sorrateira e à surdina instalaram os militares, tantas outras se instalam no dia a dia em nossa sociedade. Por isso, em meu parecer, o esquecimento, ou a banalização deste tema apaga o nome de tantas pessoas que lutaram contra tal regime e de outras tantas pessoas que hodiernamente nos tentam abrir os olhos para as ditaduras que se instalam em nossa sociedade. Lembremos para não vivermos novamente!

Evaldo Antônio Bueno Gonçalves
1º ano de filosofia – ISTA