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O mundo atual é pluralista. Isso é um fato! Nas décadas de 1960 e 1970, o entendimento em relação à religião era que a questão chave era somente o mundo secular. Hoje, entende-se que o desafio é maior: o mundo é pluralista, tanto do ponto de vista secular, quanto do religioso.

O número 32 da Revista Horizonte Teológico insere-se nessa dinâmica de reflexão, a religião no mundo pluralista. Você, caro(a) leitor(a), terá a oportunidade de desfrutar das reflexões propostas pelos nossos articulistas.

A revista abre com dois artigos referentes a dois pensadores, um filósofo e uma teóloga. Ambos são testemunhas de um pensamento construído e vivenciado nas décadas de 1930 e 1940, período marcado pela II Grande Guerra mundial. Estamos nos referindo a Dietrich Bonhoeffer e Edith Stein, dois mártires do nazismo que ousaram desafiar Hitler, o nazismo e suas atrocidades. O primeiro foi um pastor luterano que não se conformou com a constituição de uma igreja atrelada ao nazismo. O segundo, uma judia que se converteu ao cristianismo, e pensou Deus como um problema empático humano.

No primeiro artigo, Renaldo Elesbão de Almeida e seu orientador, José Luiz Isidoro, demonstram que a empatia em Edith é uma mística moderna. Em todas as religiões está presente a questão da empatia: o Deus que entra na experiência humana. A fé, afirma Edith Stein, é uma percepção de Deus. Um modo de compreender a divindade no contexto da história, partindo da experiência humana. Para a Santa Teresa Bendita da Cruz, nome religioso de Edith Stein, a questão de Deus é inevitável.

O segundo artigo, escrito por Wellington Martins Gomes e seu orientador, Paulo Sérgio Carrara, versa sobre a mística da concretude de Dietrich Bonhoeffer. Como mística da concretude, o pensamento de Bonhoeffer ilumina o mundo pós-moderno, no qual a religião passou a ser um produto a mais a ser consumido. Ele reflete a relação do cristão no mundo secular de modo cristocêntrico, ao relacionar a história e a vida de cada cristão ao mistério da salvação de Jesus de Cristo.

A devoção a São Miguel Arcanjo na região bragantina e grande São Paulo é o título do artigo seguinte. Escrito por José Antônio Boareto, ele trata de São Miguel Arcanjo como elemento de religião na devoção tradicional. São Miguel tem um longo percurso de devocionismo dentro da história do cristianismo. O autor estuda a devoção na atualidade, fazendo uma pesquisa de campo em Bragança Paulista (SP) e grande São Paulo. Ele constata a influência moderna na devoção a São Miguel na periferia dos grandes centros. Para ele, a influência pentecostal tem grande relevância nessa devoção. “A devoção a São Miguel Arcanjo se inscreve dentro do imaginário popular religioso católico na perspectiva do que denominamos combate espiritual”, constata Boareto.

O último artigo, de Jociel Batista de Carvalho, trata do tema da vocação dos jovens no mundo pós-moderno. Mergulhados nas benesses da sociedade atual, os jovens são impedidos de captar a linguagem do evangelho, a qual conduz ao Sagrado. A linguagem pós-moderna é líquida, o que impede o contato com o Sagrado. Tudo o que é sólido está desfeito. O que move a juventude pós-moderna é essa visão. Ao chegarem aos seminários, os vocacionados sentem dificuldade de compreender a linguagem do evangelho que é sólida, sagrada e não desmancha. A sedução do Sagrado é um grande desafio para a pastoral vocacional.

Por fim, Leonardo Lucas Pereira, a partir de um estudo com seus alunos do 6º período de Filosofia do ISTA, apresenta uma resenha da obra de Peter Berger, Os múltiplos altares da Modernidade: rumo a um paradigma da Religião numa época pluralista. Pereira  demonstra que Berger trabalha a passagem do paradigma da religião, no mundo secular, notadamente nas décadas de 1960 e 1970, para o paradigma atual da religião no mundo pluralista, onde estão os múltiplos altares e linguagens. Berger constata, portanto, a mudança da interpretação dos paradigmas e propõe a superação dialética da secularização. Somos desafiados por ele a pensar a religião no contexto do pluralismo atual, que envolve o mundo secular e religioso. Essa resenha encerra as reflexões propostas nos artigos anteriores e deixa o caminho aberto diante do grande desafio que nos é imposto: o lugar da religião no mundo pluralista.

Desejo a todos(as) uma profícua leitura.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

                                                                                                      Reitor