Editorial

NOVOS RUMOS DO CATOLICISMO

Lendo o texto de Roberto Benedetti sob o título de “Novos rumos do catolicismo”,[1] pode-se vislumbrar para onde caminha a Igreja com a irrupção das novas comunidades de vida e de tantos novos movimentos eclesiais. Paradoxalmente, o autor dá a entender que o novo é o arcaico, ou seja, em termos eclesiais é evidente é a volta ao passado. Porém, como ele mesmo nos alerta, essa questão temporal (volta ao passado) não dá conta de explicar a totalidade do fenômeno, pois ninguém aposta numa leitura de eterno regresso. Nessa perspectiva, ele enumera alguns impasses como chave de leitura possível da conjuntura eclesial.

Primeiro impasse: a Igreja Católica não tem mais o controle do seu próprio discurso mesmo em seu interior. Cada grupo da instituição se apropria do discurso segundo o seu interesse. A mídia pinça o que lhe interessa e transforma o discurso oficial naquilo que ela pinça. Segundo impasse: A Igreja não tem mais controle sobre as conseqüências de seu discurso. “Fazer portador de uma verdade, em nome de Deus, não qualifica o discurso. Ao contrário, acentua seu caráter ideológico que o torna ‘ilegítimo’ no ato mesmo de pronunciá-lo”. Terceiro impasse: as igrejas cristãs dialogam entre si através de seus grupos. As instâncias superiores são toleradas. Quarto impasse: dificuldade, por parte das instituições eclesiásticas, em dialogar com o neopentecostalismo, fenômeno bem latinoamericano. Sobretudo o mais recente bem nos moldes da cultura urbana pós-moderna, que traz dentro uma cultura apropriada a este mundo: pronta para lidar com as dificuldades, capaz de gerar autoestima e responder aos apelos de ascensão social como graça de Deus. Quinto impasse: o desafio da nebulosa carismática. Representa a incapacidade institucional de responder à busca de sentido. Um carismático pode trocar a missa dominical por uma sessão de testemunhos no meio da semana. Trata-se de um casamento bem aos moldes pós-modernos entre a experiência individual e o sentido de pertença de grupo. A uma decomposição do cristianismo via contestação política (anos 70), corresponde uma recomposição pós-moderna de cunho emocional. Sexto impasse: incapacidade de lidar com as práticas. A necessidade de manter o discurso oficial puro e íntegro leva a instituição eclesiástica a distanciar-se das práticas e das suas condições de produção e disseminação. Com isso, seu discurso perde eficácia. Ela fala no vazio ou pressiona para que a lei civil estabeleça códigos de conduta. Esse discurso distante – e que a sociedade torna cada vez mais distante – não gera uma interiorização de valores, normas e princípios sociais. A mídia colabora para o descrédito do discurso. Sétimo impasse: o novo clero – ‘arcaico fashion’: capaz de combinar a obediência puramente formal e a rigidez doutrinária, de tom fundamentalista, com o gosto pela cultura do consumo, que se impõe no apreço do suntuoso das vestes litúrgico-clericais estilizadas. Substitui o diálogo pela submissão aos bispos que, na atual política de nomeações, fazem o mesmo com relação às instâncias superiores.

Depois de elencar esses sete impasses, o autor como que levanta um oitavo impasse ou uma perspectiva que perpassa toda a instituição eclesial. Trata-se da falta de canais de diálogo. O cristão comum e os agentes qualificados que levam a sério suas convicções sentem-se desamparados num mundo que exige diálogo, compreensão e misericórdia e a eles se oferece apenas a necessidade de submissão. O exemplo aqui exposto é o da vigilância sobre os teólogos, pois eles são a ponte entre o magistério e a comunidade. Esse medo de dar um passo fora dos limites é oriundo da consciência de que se a autoridade assim o fizer já não haverá limites.

Tendo essa realidade como pano de fundo, Benedetti questiona se o refúgio nas comunidades de vida – de cunho ascético ou festivo e rigidez dogmática – não será o abrigo em um mundo “fora dos limites”? E oferece conteúdo para qualificar uma possível resposta a essa questão. Caracteriza essas novas comunidades de vida como aquelas que alargam os âmbitos institucionais de pertença; desvinculam o clero de sua ligação sacramental à Igreja Local, na medida em que tendem a formar padres que os sirvam; privilegiam a subjetividade sobre a autoridade visível; casam um tom fundamentalista com uma rigidez doutrinária e moral vivenciados no seu interior, garantindo-lhes a submissão; substituem os muros conventuais por muros internos, subjetivos; vinculam-se à Igreja Universal sem a mediação da Igreja Local e das regras e normas ascéticas de vida religiosa conventual; trazem os limites no coração, andando num mundo fora dos limites; realizam o que Marx afirmou sobre a Reforma, no seu famoso texto sobre a religião: “Venceu a servidão pela devoção, substituindo-lhe a servidão pela convicção. Quebrou a fé na autoridade, restaurando a autoridade da fé. Transformou os clérigos em leigos, transformando os leigos em clérigos. Libertou o homem da religiosidade exterior, fazendo da religiosidade a consciência do homem. Emancipou o corpo de suas cadeias, carregando com elas o coração”

Somente a construção de uma Igreja verdadeiramente no espírito do Vaticano II será capaz de ajudar aos homens e mulheres de boa vontade a atravessar esse momento do “império das emoções” e alicerçar sua experiência de fé em algo que compagine as emoções com a razão. Para que isso seja real faz-se necessária a implementação da eclesiologia que tem no Povo de Deus, seu sujeito de comunhão; na Igreja Local o seu espaço de realização; na ministerialidade sua forma plural, variada e rica de serviço; na subsidiariedade e complementariedade seus princípios organizativos.

A Revista Horizonte Teológico quer contribuir com essa eclesiologia a partir de seus textos de reflexão, quer no campo teológico, quer no campo filosófico ou de outra disciplina. Ela terá sempre a perspectiva da interdisciplinariedade, pois acredita que é esse o seu modo de fazer teologia, contribuindo com a ampliação do campo do diálogo, ferramenta imprescindível para uma sociedade e Igreja em busca da tolerância e da paz.

 

Pe. Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

 


[1] BENEDETTI, Luiz Roberto – “Novos Rumos do Catolicismo”, p. 26-31, in – Novas Comunidades Católicas – Em busca do espaço pós-moderno. Brenda Carranza, Cecília Mariz, Marcelo Camurça (organizadores). – Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2009. (Coleção Sujeitos e Sociedade / coordenada por Brenda Carranza).

 

Revista Horizonte Teológico – 14 (1,4 MB)

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