Editorial

Respeitando a alteridade, fomentando a tolerância

A Revista Horizonte Teológico está debutando. Chega com esse número a sua 15ª edição. Esse símbolo dos quinze anos reflete bem o momento da Revista: é uma adolescente buscando sua maturidade. Nesse número, além de seus artigos que nos instigam a reflexão, temos a contribuição dos alunos do ISTA, que ensaiam seus primeiros passos na produção do pensamento teológico. Esse é um dos objetivos da revista: abrir espaço para a criatividade daqueles que não estão somente repetindo a filosofia e a teologia oficiais, mas ousando a pensar.

Numa conjuntura que busca unificar tudo e todos, por meio da avalanche globalizadora, somos chamados a contemplar a possibilidade de um pensamento distinto, “cuidador” das diferenças. O artigo do professor Dr. José Carlos Aguiar, nos leva a considerar a amplitude de possibilidades de afirmação da identidade da consciência sem que isso implique um aniquilamento da alteridade da natureza. Identidade e alteridade temas correlatos na produção do pensar e na criação de novas relações. Aguiar abre perspectivas novas a partir do pensamento metaxológico, pois como ele afirma: “O pensamento metaxológico permanece sempre aberto ao ser em sua alteridade ao conceber a origem como plenitude: um excesso que inspira espanto e admiração para além de todo sistema conceitual de inteligibilidade.” Assim, a metaxologia se apresenta como respeitosa da alteridade tão necessária em tempos de tão pouca tolerância.

De outro ângulo, o teológico, nosso aluno Cristiano Teodoro afirma em seu artigo a atual necessidade de um pluralismo religioso. Passando pelas perspectivas mais marcantes no campo do diálogo inter-religioso – exclusivismo, inclusivismo e pluralismo – Cristiano, inspirado pelo pensamento de Claude Geffré, toca num dos temais mais presentes no pensamento atual: a questão da hermenêutica. Com medo do relativismo, muitos terminam por se abster do árduo exercício hermenêutico, caindo numa posição perigosamente dogmática. Quem sabe o pensamento metaxológico possa aqui, mutates mutandis, se constituir numa abertura para novas considerações no seio do difícil diálogo, respeitoso das alteridades.

Valeriano dos Santos Costa nos leva a um passeio pela evolução semântica do termo mística, para nos ajudar a resgatá-la na dimensão orante e celebrativa da Igreja, a partir do Concílio Vaticano II. Perceber Deus por meio de uma profunda experiência do Mistério de Cristo, que emerge com toda sua força na reforma conciliar, serve como trilha do pensamento desse artigo. Seguindo essa trilha, Valeriano nos conduz desde as experiências dos primeiros cristãos até as dos nossos dias.

Fechando a sessão de artigos, temos a colaboração da Professora Solange, com o tema fascinante da abertura das primeiras comunidades aos gentios. Momento crucial para o futuro do cristianismo nascente. Rejeitados por aqueles que se constituíam nos primeiros ouvintes da Palavra, os cristãos, por meio de seus expoentes máximos, sobretudo Paulo, re-orientam a missão em direção aos que se abriam a novidade cristã. Quais seriam hoje os novos passos, tão audaciosos como os dos primeiros, necessários para sairmos da posição cômoda de conquistas passadas, que já mostram nítidos sinais de cansaço e de esgotamento?

A sessão das comunicações quer servir de incentivo para a produção acadêmica de nossos alunos. Com muita alegria vemos os esforços daqueles que expressam sua recepção dos conteúdos ministrados pelo corpo docente. Orgulho para os mestres e todos os que apostam num exercício da missão evangelizadora com mais profundidade e qualidade.

Não poderíamos terminar de apresentar esse número da Revista sem fazer um profundo agradecimento a Deus pelo dom da vida de nosso já saudoso Frei Prudente Nery (26/05/1952-19/06/2009). Creio que é sentimento de todos: como você foi cedo demais! Homem profundo e de não muitas palavras. Só as essenciais. Ouso dizer a Deus que é com muita dificuldade que vivenciamos a partida de um irmão tão querido e mestre tão competente. O problema que se repte a cada dia está na reposição de pessoas desse nível. Estamos assistindo a partida de muitos sem vislumbrar, de imediato, essa reposição. São buracos abertos que nos deixam em situação de petição diante do Pai: suscite, ó Deus, gente com a capacidade e o coração do Prudente para que vejamos com mais facilidade sua eterna bondade e misericórdia em vir em socorro dos que ficamos sedentos por entender melhor Sua Palavra.

Pe. Manoel Godoy
Diretor Executivo do ISTA

Revista Horizonte Teológico – 15 (1,4 MB)

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