Editorial

Há pessoas cujo nome evoca um evento. Frei Bernardino Leers está profundamente ligado ao Concílio Vaticano II. Ainda que insistam tanto hoje em dia na questão hermenêutica, o maior evento eclesial do século XX não pode ser reduzido à sua letra. Ele transcende à pura materialidade. Seu espírito faz emergir a Igreja mais fiel a suas fontes. Pé no chão.

Jesus de Nazaré, o andarilho, entrando nas casas do povo para uma refeição, sentando-se no poço da cidade para ouvir as histórias de quem aí vinha buscar água, parando no caminho para atender coxos, cegos, surdos, mudos, epilépticos e outros, classificados de impuros na sociedade da época, nos remete a uma Igreja simples, de contato direto, desburocratizada. Essa foi a intuição do Concílio Vaticano II e tudo isso serve de moldura para entendermos melhor o franciscano Bernardino Leers, que sempre soube desenvolver a moral a partir dos pequenos, dos pobres.

Já em 1970, Frei Bernardino intuía a necessária mudança na teologia moral, se ela, de fato, quer falar ao coração do povo:

Nos tempos atuais, a teologia moral, com sua imagem fixada nos manuais e por certo tipo de leitura devota, não parece exatamente a ciência mais popular, cujas visões e regras de comportamento sejam aceitos de braços abertos pelo homem de hoje. Moralista ficou muito perto de moralismo, farisaísmo e ‘desmancha-prazeres’. Sua imagem já tem provocado a caricatura duma professora velha, magra, alta, vestida de preto dos pés até ao queixo, que assustada lança um olhar de reprovação sobre o mundo confuso.[1]

Muito já se falou do “cisma silencioso” que há entre a doutrina oficial católica e o pensar e agir do povo. Frei Bernardino sempre teve isso em conta e incansavelmente propôs aos produtores da doutrina oficial que olhassem com mais carinho ao ethos popular. Seu profundo respeito pelo povo brasileiro, ou melhor, seu amor pelos simples, sempre o colocou no sentido de “interligar o ethos popular e a ética cristã”[2].

Com sabedoria ímpar, Frei Bernardino constata: “Não há nenhuma garantia para a suposição de que a moral que, com suas normas, práticas, tolerância e sanções, existe entre o povo, corresponda aos ensinamentos oficiais do clero.”[3]

Nesse espírito, ele apresenta a moral enraizada na vida e experiência do povo, destacando que “o verdadeiro lugar da moral não é o manual de teologia ou um decreto papal qualquer, mas a práxis dos cristãos, porque é de seus corações e ações que brotam os valores e os males reais que formam o mundo humano histórico.”[4]

Nada de moral abstrata. Nada de princípios genéricos, que não levam em conta a situação real do povo. Com esses princípios, profundamente arraigados na eclesiologia da Igreja que nasce do povo, como tão bem emerge do Concílio Vaticano II, Frei Bernardino fez escola. São inúmeros os seus discípulos no campo da moral.

É claro que se trata de campo minado, mas ele sempre soube se virar muito bem nesse meio, valorizando a participação do povo na construção da moral.

Holandês de nascimento, soube entender a alma do povo brasileiro e valorizar seu “jeito”, considerando-o como instrumento moral humano. Ninguém melhor do que ele definiu tal “jeito”. Para ele, “jeito é o lugar no espaço real dinâmico da vida, em que surge algo novo que ainda não era e não mais será”.[5] Frei Bernardino intuiu que esse jeito também condiciona o agir moral de nosso povo e, embora na transitoriedade momentânea, o jeito “significa mais um passo na passagem histórica duma pessoa pelo mundo, porque ela criou e realizou.”[6]

Somente alguém de bem com a vida pode desenvolver uma teologia moral que ajude o povo a entender a máxima de Jesus: “Meu jugo é leve, meu fardo é suave”. Ao contrário daqueles que dificultam a entrada dos irmãos e irmãs no Reino, Frei Bernardino, com sua teologia moral, torna o paraíso mais acessível aos pobres mortais.

Somente alguém de bem com a vida sabe ler o ethos popular em chave do humor. Quando damos muita importância a nós mesmos, não percebemos o lado risível (para não confundir com o ridículo) da vida. Essa sutileza é característica dele, que soube sim ver bem a “esperteza” dos simples, que sabe ser sério frente aos que se valorizam por demais e sabem, depois, rir das circunstâncias vexatórias que a vida lhes impõe.

Diante do poder absoluto no trono, somente o bobo da corte tem a liberdade de arriscar a cabeça. O povo simples não assume o risco. Quando uma autoridade faz seu discurso com toda a imponência de palavras difíceis e a empáfia dos gestos, o povo comum escuta e aplaude. Mal sai e o povo solta suas críticas e um ou outro apresenta uma caricatura do ilustríssimo para todo mundo rir à vontade.[7]

Com essa edição, a Revista Horizonte Teológico, destacando o pensamento de Frei Bernardino Leers, quer homenagear a todos os moralistas de bom humor que souberam interpretar o espírito do Concílio Vaticano II, trazendo o céu para mais perto de todos, sobretudo dos pobres e simples.

Bernardo Haring, Joseph Fuchs, Marciano Vidal, Jayme Snoeck, José Maria Fructuoso Braga são alguns nomes que podemos colocar ao lado de Frei Bernardino Leers, formando um time de primeira no campeonato da teologia moral, onde o rigorismo se apresenta tão forte, mas não pode vencer o humor dos que amam os simples e estão de bem com a vida.

Deus lhe pague, Frei Bernardino!

 

Pe. Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

 


[1] LEERS, Bernardino. Novos rumos da moral. Belo Horizonte: O Lutador, 1970. p.55. (Cadernos de Atualização Teológica, 2).

[2] Ibidem, p.7.

[3] Ibidem, p.10.

[4] Ibidem, p.24.

[5] LEERS, Bernardino. Jeito brasileiro e norma absoluta. Petrópolis: Vozes, 1982. p.51. (CID – Pastoral, 7).

[6] LEERS, loc. cit..

[7] LEERS, Bernardino. Rigorismo moral e humor popular. São Paulo: Paulinas, 2007. p.58. (Ética).

 

Revista Horizonte Teológico – 16 (1,4 MB)

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