Editorial

Uma das vantagens de se viver no mundo acadêmico é andar antenado com criatividades díspares que emergem tanto do corpo docente quanto do discente. Sobretudo quando o ambiente favorece a liberdade e a autonomia no pensar. A geração que conviveu com períodos fortes de recessão é muito sensível a qualquer vestígio de censura, sobretudo do pensamento. Numa instituição que se pretende como gestadora de pensamento no campo filosófico e teológico, o limite é traçado pelo amor, pela defesa intransigente da vida. Nesses contornos, todos são estimulados a produzir ideias, que inspiram práticas, que voltam para o mundo das ideias e, assim, alimentam um círculo hermenêutico cheio de novas perspectivas. Nossa Revista Horizonte Teológico tem se constituído nesse espaço criador, apontando para práticas transformadoras. É com esse espírito que podemos ler os textos que compõem o atual número de nossa revista, que sugere novas posturas no processo de formação presbiteral e catequético.

O texto HOMOSSEXUALIDADE NA BÍBLIA está entre aqueles textos e ideias que, por sua própria natureza, suscitam um intenso debate. Não será diferente com o referido texto que nossa revista publica. Já no Conselho Editorial assistimos a um caloroso debate… É no intuito de provocar mais reflexões sobre o tema que decidimos pela sua publicação. A Revista se mantém aberta ao diálogo com outras linhas de pensamento, sobretudo, em se tratando de questão tão disputada, quer no meio eclesiástico, quer no âmbito de toda a sociedade civil. Somos cientes de que, nesse assunto, nenhuma reflexão consegue consenso.

Quem sabe a leitura de O joio e o trigo nas veredas do ser-tão humano: uma análise filosófica das categorias do bem e do mal na obra Grande Sertão, de Guimarães Rosa, possa oferecer chaves de leitura para o campo da moral, da ética e dos comportamentos em geral? Percebe-se que as fronteiras do bem e do mal não são tão nítidas, como nossa mente cartesiana gostaria que fosse. Não dá para viver deduzindo imperativos categóricos, sobretudo baseados numa certa concepção de lei natural, tão frequente em discursos nos meios eclesiásticos. Como exemplo, não conseguimos tão facilmente resolver o enigma tão presente no Primeiro Testamento: Por que o justo sofre? É certo que a resposta não pode emergir da teologia da prosperidade ou da retribuição, estranhas ao genuíno pensamento e prática de Jesus de Nazaré. Nessa ótica, vale a pena rever nossos conceitos, a partir dos artigos A QUESTÃO DE DEUS E O SOFRIMENTO HUMANO NO LIVRO DE JÓ e DEUS E OS POBRES: sobre a relevância do debate acerca do fundamento na Teologia da Libertação.

Já com os textos UM OLHAR FILOSÓFICO ATRAVÉS DA LITERATURA DE CORDEL: “As proezas de João Grilo” e CONTOS DO MEU SERTÃO, temos a prova de que a literatura nos leva a filosofar e a teologar, partindo do cotidiano do povo, com sua cultura tão rica e variegada.

Por fim, as recensões querem trazer à tona questões ligadas à arte de educar e de educar-se, bem como a problemática tão atual dos problemas de linguagem.

Como fala Guimarães, na sua obra imortal, Grande Sertão: Veredas, “Viver é um descuido prosseguido”. Portanto, enquanto estivermos descuidados nessa terra, queremos fazer do livre pensar um estilo de prosseguir vivendo.

Bom passeio pela agradável aventura de ler textos tão diferenciados, que apontam para questões tão disputadas.

 

Pe. Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

Revista Horizonte Teológico – 17 (3,4 MB)

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