Editorial

O CAMINHO DA PALAVRA EM MEIO A TANTAS PALAVRAS

No meio do caminho havia a Palavra, e a própria Palavra era o caminho. Pedra que serve de tropeço a alguns e de alavanca para outros. A Palavra não é neutra e toda tentativa de silenciá-la resulta num fracasso sem medidas. Esse número da Revista Horizonte Teológico oferece oportunidades para degustarmos da Palavra de maneira crítica, questionadora e construtiva. Exegese e hermenêutica se complementam no esforço honesto de um leitor cuidadoso. Sem descurar da seriedade exegética, nunca podemos fazer dessa ciência um entrave na vida daqueles que encontram na Palavra o sentido para sua existência. É preciso sempre ter em conta que ninguém pode aprisionar a Palavra, uma vez que o próprio Verbo encarnado deixou claro que o Pai revela certas coisas aos pequeninos, escondendo-as dos grandes e poderosos deste mundo.

Nessa perspectiva, pode-se deduzir que o grande trabalho de um exegeta é saber perscrutar a Palavra escrita e revelada, mas com igual acuidade saber ler essa Palavra vivida pelos preferidos do Verbo: os pobres.

Uma exegese que não nos remete à vida dos pequeninos carece de identificação com o verdadeiro objetivo da Palavra revelada. Sendo assim, usando o método histórico-crítico, tão bem detalhado pelo texto do Pe. Luís Henrique, ou se servindo da exegese canônica, como a descreveu o Papa Bento XVI na aula sinodal, o cuidado deve ser facilitar a audição e o compromisso com a Palavra, que não pode voltar ao Pai sem ter produzido seus frutos no chão do dia-a-dia do povo de Deus.

Com o texto da Professora Solange do Carmo, podemos auferir uma chave de leitura da Palavra no que diz respeito ao tema da primogenitura no Primeiro Testamento. As diversas narrativas que envolvem primogênitos nos dão a sensação de que a lei que os favorecia foi inúmeras vezes violada, revelando que Deus não segue os critérios de leis estabelecidas pelos seres humanos, mas faz sua trajetória por caminhos não bem previstos, nem tão evidentes.

E com o Frei Luis Augusto, agostiniano, temos a oportunidade de relacionar dois temas que, à primeira vista, parecem nada ter em comum: a Palavra e a sexualidade. Sua reflexão nos ajuda a perceber o quanto a Palavra foi e pode ser manipulada, favorecendo a determinados interesses.

O tema da ética, abordado pelo Pe. Dejair de Rossi, embora não tenha relação direta com a Palavra, no sentido dos anteriores, também nos dá pistas hermenêuticas, pois a defesa da vida é ponto crucial das narrativas bíblicas. Pode-se mesmo afirmar que a Palavra só é legitimamente interpretada se estiver em relação à ética e à defesa da vida.

Este número da Revista Horizonte Teológico ainda nos dá a alegria de perceber que os alunos do ISTA estão fazendo seus ensaios literários, acompanhados diligentemente pela Profª. Helena Contaldo. E duas recensões despertam em nós o gosto pela leitura de livros que nos põem em contato com a história da Igreja: o feliz relato do Frater Henrique sobre sua trajetória como religioso e o livro de Robinson, o Cardeal, que figura na literatura como um clássico. Este, embora não tão novo, nos dá o sabor de uma viagem pela vida de pessoas que sempre despertaram interesse no público por causa do mistério que cerca a vida de muitos deles: o padre.

O ISTA, com a publicação de sua revista, dá a sua colaboração ao mundo acadêmico, despertando a sensibilidade por boas leituras e reflexões de temas da atualidade. Que a Palavra faça seu caminho no meio de tantas palavras.

Pe. Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

Revista Horizonte Teológico – 18 (1,4 MB)

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