Editorial

TÉCNICA:
UMA HERMENÊUTICA DA EXISTÊNCIA NO SEU TODO

Este número da Revista Horizonte Teológico, no ano jubilar do ISTA, traz algumas contribuições de participantes da XVIII Semana Filosófica realizada em maio do corrente ano, que teve por tema “Filosofia e Tecnologia”. O pensador jesuíta Pe. João Mac Dowell, na sua reflexão sobre “Técnica e Progresso” coloca seus interlocutores frente a uma questão muito instigante: “crença na evolução da técnica como fator do verdadeiro progresso da humanidade ou criacionismo?”. No desenvolvimento do seu pensamento, Mac Dowell afirma que nem tudo que emerge como novo pode ser chamado de progresso e que este pode ser definido como uma mudança para melhor, medida por determinado padrão, em vista de determinado fim. Nessa perspectiva, pode-se medir o progresso pessoal, de um indivíduo, ou progresso social.

Todo o sentido da reflexão foi alertar para a necessidade de pensar esta realidade, na sua essência, na sua inspiração mais profunda, não nos deixando arrastar simplesmente por seu dinamismo fatal. A técnica, na sua essência, é um modo de ser, de compreender a existência no seu todo. O que importa, hoje, é libertar-nos do espírito da técnica, que nos domina e controla, ao nos transformar em dominadores e exploradores implacáveis da natureza. O progresso tecnológico não nos torna, por si mesmo, nem mais nem menos humanos. O que nos torna verdadeiramente humanos é a abertura de cada um na liberdade para o sentido da realidade, é acolher com gratidão o dom da existência, correspondendo fielmente aos apelos de seu destino.

Já a professora visitante da Universidade Federal de Minas Gerais, Lilian Simone Godoy Fonseca, tomou dois autores, Hans Jonas e Martin Heidegger, e os confrontou com seus conceitos sobre a técnica. Afirma ela: a técnica está presente desde a aurora da humanidade, porém nunca como então, a técnica se converteu num elemento tão onipresente e absolutamente indispensável à vida humana e extra-humana. E alertou: a técnica tem seu lado luminoso e seu lado obscuro. Assim, está posta também a questão da ética para uma sociedade tecnológica. Como abordar o necessário controle do homem sobre a técnica?

O professor da Faculdade de Filosofia e Teologia de Goiás, Elismar Alves dos Santos, ao desenvolver o tema “Religião, moral e teologia: opção para a reflexão da ética do cuidado”, traz um contributo à questão da ética bastante significativo. Partindo da perspectiva de Kant, que afirma que a moral conduz à religião, mas a religião não conduz à moral, o autor não esvazia a significância da religião, mas esta pode se constituir num espaço imprescindível para a vivência de uma ética do dever. Por outro lado, o autor enfrenta a problemática teológica, afirmando que, com a redefinição do conceito específico de teologia, Kant abre a dupla passagem do conhecimento: da ciência da natureza à moral e da moral à religião, dando contornos nítidos da racionalidade da religião. Em tempos de emocionalidade, ligar religião à razão é um desafio que está posto: “uma dose de racionalidade proporciona ao ser humano a capacidade de refletir sobre o limite e o alcance da religião. O fracasso da religião ocorre a partir do momento em que a religião distancia-se da razão.” Por fim, deixa claro que a relação entre ética, moral e religião, sob o prisma de Kant, pode jogar luzes para uma ética do cuidado, ética da alteridade como imperativo último para o agir.

A reflexão de Vanderson de Sousa Silva, mestrando da PUC-Rio, sobre a eclesiologia da comunhão nos ajuda a resgatar a dimensão trinitária da Igreja, como fizeram os padres conciliares na Constituição Dogmática Lumen gentium, ao assumir a definição eclesiológica de Cipriano de Cartago de que a Igreja é como “plebs adunata de unitate Patris et Filii et Spiritus Sancti”. Dentre outros desenvolvimentos, resgata também o equilíbrio entre o Pão da Palavra e o Pão Eucarístico, tão maltratado na praxe eclesial atual, onde a volta à “devotio moderna” exalta tanto a hóstia consagrada, deixando na obscuridade a força da Palavra. Passando pela reflexão dos Santos padres, o autor afirma que a patrística não separava a Igreja de Cristo, nem a Igreja da Eucaristia, fazendo emergir uma eclesiologia unida ao Mistério de Cristo e da Eucaristia. Mostra a dinâmica que há do Sacramentum unitatis, a Eucaristia, para a vivência da communio. Nessa perspectiva, não só o pão e vinho são eucaristizados, mas também a Assembleia que invoca o Espírito sobre as espécies.

Por fim, Orione Silva, presbítero, e Solange Maria, leiga, ambos catequetas, abordam a questão imensamente pertinente nos dias de hoje sobre métodos de leitura e abordagens possíveis da Bíblia. Frente à avalanche fundamentalista que assola o mundo religioso, texto bastante oportuno. Ao diferenciar a leitura literária da leitura fundamentalista, afirmam os autores: “O perigo do fundamentalismo está exatamente em desconsiderar o texto como literatura humana, como se ele tivesse caído pronto do céu, sem a mediação humana. Parece que esse risco é bem remoto na leitura literária”. Essa perspectiva nos ajuda a entender o que os autores resumiram numa frase tão feliz: “Se a religião cristã é religião do livro, ela é antes de tudo religião da hermenêutica”.

Nossos leitores ainda poderão ser instigados à prática da boa leitura por meio de duas recensões. Uma delas trata da série de publicações do teólogo Bruno Forte, editada pelas Paulinas. A professora do ISTA, Áurea Marin, passeando pela coleção, nos desperta para o prazer de ler os livros deste teólogo que trata das palavras com poesia e profundidade. E o Pe. Cleto Caliman, diretor geral do ISTA, nos apresenta a pequena obra de um dos mais lidos, dentre os teólogos da atualidade, o espanhol José Pagola, sobre o Pai Nosso. Como o próprio Cleto nos diz, esse texto visa nos ajudar a superar a repetição mecânica dessa oração e a reforçar nosso desejo de caminhar nas sendas do Senhor.

Desejamos a todos uma sadia e agradável leitura deste número da Revista Horizonte Teológico e, assim, todos os leitores estão em sintonia com nossas comemorações do ano jubilar do ISTA.

 

Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

Revista Horizonte Teológico – 22 (2,4 MB)

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