Editorial

 

EDUCAR PARA A VIDA  PLENA

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” (Paulo Freire)

Quem se dispuser a passear pelos textos deste número da Revista Horizonte Teológico, terá uma sensação de que o ISTA provoca em seus colaboradores um universo de temas que, à primeira  vista, podem parecer desconexos. Por isso, ofereço um fio condutor que os une e dá certa coesão à sequência de artigos: Educar para a Vida Plena. Da problemática da família à espiritualidade dos irmãos de vida comum, o que se quer é exatamente isso: Educar para que a Vida seja plena, marcada por uma espiritualidade que dê um sentido profundo à nossa existência.
 
Família sempre foi e será um tema a ser revisitado e, com a proximidade do Sínodo dos Bispos sobre a Família, em outubro de 2014, o ambiente eclesial se torna campo bastante fértil para tal  abordagem. Sebastião Corrêa retoma as reflexões da Exortação Apostólica do Papa João Paulo II –  Familiaris Consortio – à luz das  conclusões da V Assembleia Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, realizada em Aparecida como ponto de referência do Magistério da Igreja e, por outro lado, os conceitos da psicologia de  Erik Erikson, traçando caminhos para o cuidado pastoral das famílias. Dessa forma, emerge a metodologia calcada na interdisciplinaridade como forma de abordagem consciente de uma das instituições que  mais vêm sofrendo com as crises da sociedade hodierna.

Vivemos sob o fogo cruzado das intolerâncias e da pluralidade crescente. É paradoxal. Hoje, há uma consciência mais aguçadada presença do outro como condição para a firmação da própria
identidade. Porém, cresce também o número dos que se sentem invadidos frente à irrupção do outro e dos outros, nesta sociedade plural. Considerar a alteridade como caminho para a emancipação e humanização é muito oportuno e abre um leque de possibilidades de realização do eu frente ao outro. O professor Ismael de Sousa parte de um contraponto muito pertinente entre os conceitos de alteridade em Buber e Levinas, destacando a liberdade e a responsabilidade nas
relações humanas.

Desde que o método histórico crítico foi introduzido na exegese bíblica, o Evangelho segundo Marcos tornou-se alvo de muitas leituras interessantes, ressaltando a originalidade do gênero bíblico – evangelho – atribuída a esse evangelista. Com isso, Marcos passou a ser considerado o primeiro evangelho, e não mais Mateus. Além disso, mergulhar na questão do messianismo de Jesus pode  jogar luz aos messianismos atuais, tão em voga. Juan Pablo, com seu texto sobre o Evangelho de Jesus, Filho de Deus: as linhas mestras do Evangelho de Marcos, nos ajuda a mergulhar nesse debate onde o segredo messiânico e o discipulado ganham status de temas fundamentais nesse evangelho.

Antes do Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil lançou um Plano de Pastoral em âmbito nacional, sob o título de Plano de Emergência. Nele, um dos destaques é, na linguagem de então, a renovação dos educandários. Como entrada, apresenta a escola católica caracterizada por dois princípios fundamentais e complementares: espírito de família e espírito missionário. Com a declaração conciliar Gravissimum Educationis, temos o aprofundamento dessas características tão bem tratadas no artigo do Frater Henrique, relatando um encontro da Associação Nacional de Educação Católica do Brasil – ANEC.

Frater Henrique enfrenta com pertinência o intrigante questionamento: o que pretendemos com um colégio católico? Numa articulação muito interessante entre documentos da Igreja e a  situação atual da educação católica, ele justifica com muita precisão o título de sua reflexão: Educar para a Vida Plena. O trabalho de José Carlos Aguiar de Souza, Marco Aurélio do Nascimento Alves e Rafael Lourenço Navarro sobre “A Hermenêutica desmondiana: aberturas filosóficas para a discussão ecológica” nos ajuda a explorar problemas e condicionamentos filosóficos que envolvem questões ecológicas e ambientais. O texto, assim, pretende explorar as possibilidades de outro modo de (bio)narrativa, que não tenha o ser humano como centro de referência.

Por meio de uma resenha muito interessante, Ronilson de Sousa nos leva a passear na obra de Umberto Eco – “Seis Passeios pelos Bosques da Ficção” –, onde o tempo aparece como destaque no  método de interpretação de uma obra literária de tal gênero. Emerge a necessária conclusão de que ler uma obra de ficção é superar a letra e dar asas à imaginação, realizando assim um verdadeiro pacto com o autor.

O ISTA teve a alegria de ser o espaço de lançamento do livro  Imitação de Cristo: caminho de crescimento espiritual, do seu eterno colaborador e ex-professor Frater Henrique Cristiano José
Matos. Depois de tantas versões dessa obra que caracteriza tão bem o movimento laical denominado de  Devoção Moderna, da passagem da Idade Média para a Idade Moderna, o que poderíamos  esperar ainda de novo? Nos tempos atuais, em que tanto se fala de crises institucionais, a Igreja Católica não ficou ilesa. Porém, a espiritualidade cristã continua provocando um fascínio muito grande nos homens e mulheres de hoje; por isso, retomar a obra de Tomás de Kempis, da forma que o fez Frater Henrique, é contribuir com uma resposta profunda a tal fascínio, ajudando a dar sentindo real à vida. Vale a pena ler o artigo que retrata como se deu tal evento, onde o próprio autor apresenta o livro, a professora Silvia Contaldo, doutora do pensamento de Agostinho, relaciona o caminho espiritual de Tomás de Kempis com o do bispo de Hipona e Paulo César Barros, SJ, amplia nosso olhar sobre “A influência da ‘Imitação de Cristo’ em Inácio de Loyola e na espiritualidade inaciana, no contexto da Devotio Moderna”.

Finalmente, Nei Brasil Pereira nos oferece uma excelente resenha do último livro do Frater Henrique C. J. Mattos: Preso estou, livre serei. Pastoral carcerária: fundamentos, inspiração, atuação,
da Ed. O Lutador. O livro preenche uma grande lacuna na área. Que sua leitura nos estimule um novo olhar para a situação carcerária no Brasil: um olhar de misericórdia.

Pe. Manoel Godoy
Diretor Executivo do ISTA

Revista Horizonte Teológico nº 26

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