ÉTICA, INCLUSÃO, JUSTIÇA E COMPAIXÃO:

elementos para uma reflexão teológico-pastoral

 

É claro que sabemos que moral e ética são grandezas distintas, mas ambas possuem em comum a possibilidade de uma escolha a ser feita. A moral pode ser entendida como constituída por valores previamente estabelecidos e comportamentos socialmente aceitos, mas estes sempre serão passíveis de passarem por fortes questionamentos pela ética, sobretudo quando esta busca condições mais justas. Em poucas palavras, se pode afirmar que a moral é convenção e a ética, reflexão.

Neste número da Revista Horizonte Teológico temos a oportunidade de fazer tal correlação, e submetermos tanto a moral quanto a ética ao princípio da misericórdia, de acordo com a proposta do Papa Francisco.

A moral, na perspectiva de Frei Bernardino, objeto de estudo de Frei Oton, no seu artigo “Frei Bernardino Leers e Papa Francisco: um diálogo inspirador”, é uma moral situada, e não essencialista. E o Papa Francisco não vai pelo mesmo caminho quando propõe rever velhas normas e velhos preceitos eclesiais “que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida”? (cf. EG 43).

Já Frater Henrique passeia por outro tema também querido pelo Papa Francisco, o cuidado com nossa casa comum, e o submete à perspectiva da ética ecológica inclusiva, como questão de justiça e compaixão. Assim, ele toma os quatro temas fortes da Encíclica Laudato Si’ – ética, inclusão, justiça e compaixão e também os lê em chave da misericórdia. E de maneira intrigante nos põe a refletir sobre o sentido mais profundo de nossa organização civilizacional, para que possamos ter uma visão mais holística e inclusiva, onde todos os seres que habitam o planeta, essa nossa casa comum, tenham direito à vida.

A primeira parte da reflexão de Amarildo de Melo nos põe em contato com uma opção moral feita pela Instituição Católica no século XVI, por meio do Concílio de Trento, que, exacerbada na sua aplicação, gerou um movimento chamado jansenismo. Ele o faz de maneira muito interessante, analisando os sermões de um padre/bispo português que veio ao Brasil em princípios do século XIX, se instalou em Mariana, no Estado de Minas Gerais, e se tornou aí um dos missionários mais brilhantes de sua geração. É preciso levar em conta o alerta que o autor faz no sentido de contextualizar o trabalho de Dom Antônio Ferreira Viçoso, para não cometermos injustiças, pois, com uma análise fria dos fatos, percebe-se que sua opção moral, de acordo com o jansenismo, era desprovida do conceito de misericórdia que hoje usamos e impregnada da pedagogia do medo. Na verdade, o conceito paulino sobre a graça é praticamente ausente, para dar lugar a uma antropologia profundamente negativa, onde a iminência da condenação do ser humano ao inferno é muito mais precisa do que a chance de salvação garantida a todos pelo sacrifício de Cristo.

Como dizíamos no início desta nossa apresentação, a moral e a ética têm em comum ser fruto de escolhas a serem feitas. Nada mais urgente para nossas escolhas que o desenvolvimento de caminhos de espiritualidade e mística profundos, como faróis iluminando o nosso peregrinar nesta casa comum. Dois alunos graduados em Filosofia pelo ISTA, Bruno Castro Schröder e Jonathas Andrade Campos, nos ajudam a caminhar com dois grandes místicos – Agostinho de Hipona e Teresa de Jesus – buscando saciar nossa sede de Deus, que se encontra em nossa mais profunda interioridade. Os dois místicos experimentaram a conversão e são, sem sombras de dúvidas, dois paradigmas para todos os que querem sair da mediocridade, que muitas vezes o cotidiano se nos impõe.

Sebastião Corrêa Neto, com ampla experiência no campo da pastoral vocacional e do cuidado, nos dá pistas preciosas para traçarmos nossos próprios projetos de vida, bem como acompanhar jovens que estejam buscando construir tal projeto. Por meio de etapas bem delimitadas, o autor vai sinalizando o caminho do peregrino/discípulo de Jesus Cristo, que busca crescer na fé, por meio de opções de vida transparentes e desafiadoras.

Como comunicação, temos ainda uma pequena coletânea de fatos atuais que nos ajudam a ler a realidade contemporânea, não isenta de uma opção ideológica do seu autor, Manoel Godoy. Não chega a ser uma análise militante, mas seleciona alguns dados que podem provocar debates, que apontem para uma reflexão mais completa da situação que vive o Brasil nos dias de hoje.

E como recensão, temos a colaboração de um aluno do curso de pós-graduação do ISTA – Sérgio Roberto Monteiro, da Diocese de …, que se debruçou sobre a obra de Antonio Spadaro, teólogo jesuíta, consultor do Pontifício Conselho da Cultura e do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais. A obra de Spadaro – Cibertologia: pensar o Cristianismo nos tempos da rede – trata de um desafio que é pensar a teologia hoje em tempos de redes sociais, considerando a invasão das recentes tecnologias digitais no nosso cotidiano.

Por tudo isso, cremos que vale a pena ler todos os artigos deste novo número da Revista Horizonte Teológico, que agora colocamos nas mãos dos nossos leitores. Pensamos em contribuir para um começo de reflexão sobre termos importantes tais como ética, inclusão, justiça, compaixão, moral e misericórdia. Se acharem conveniente, reajam aos nossos artigos, escrevendo-nos por meio de nossos endereços, inclusive o nosso site.

 

Pe. Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

 

Download Arquivo completo