Editorial

DIALOGAR É PRECISO

Dialogar é preciso… como navegar, segundo o poeta. É assim que temos neste número da Revista Horizonte Teológico dois textos que tratam da necessidade do diálogo, não só para vencer a intolerância hodierna, mas, sobretudo, para fomentar a emergência de uma nova sociedade capaz de promover o bem viver.

Nesse contexto, as igrejas e, de maneira particular, a católica, jogam um papel importante, pois não são poucos os exemplos de violência na convivência humana gerada por intolerâncias religiosas.

Com o texto “A Igreja em diálogo com a pós-modernidade”, o professor de moral Amarildo José de Melo, de forma diacrônica, nos ajuda embrenhar na sucessão dos paradigmas do conhecimento – do da natureza para o da consciência e desta para o da linguagem – como aquele que está em construção e responde mais adequadamente à crise das grandes narrativas provocada pelo pensamento pós-moderno. E é também nesse contexto que emerge o questionamento sobre a intelecção da lei natural, tão usada como fonte explicativa para uma sequência grande de questões morais pela instituição católica.

No pequeno artigo “Fora do diálogo não há salvação”, o autor passeia pelas tendências do mundo do diálogo inter-religioso, ressaltando que há um amplo leque de opções nas considerações de mediação para a salvação. Desde as posturas mais fechadas e eclesiocêntricas até as mais abertas e macroecumênicas.

Com muita picardia exegética, as professoras Solange Maria do Carmo e Aíla Pinheiro de Andrade revisitam o texto bíblico de Jonas, instigando todos os leitores à abertura aos sinais dos tempos, tais como a xenofobia e a questão angustiante dos migrantes. Somente corações e mentes abertas estão aptos para a convivência com o mundo atual, que gira num espetacular redemoinho de coisas novas e inovadoras. É nesse redemoinho que descobrimos as intervenções inéditas de Deus na história, que não se repete a si mesmo nos seus métodos, mas sempre se inova no afã revelador de seu carinho com a humanidade.

A Revista Horizonte Teológico vem incentivando o alunado a produzir textos que aprofundem as diversas disciplinas que constam dos currículos dos cursos de filosofia e de teologia. Neste número, temos duas colaborações. O aluno Gustavo Marcel Filgueiras Lacerda aborda o pensamento de Hannah Arendt para argumentar o surgimento da necessidade de reconstrução do espaço público nos períodos pós-totalitários. Nessa linha de pensamento, Gustavo passeia pelos temas da liberdade e dos direitos humanos, que servem de suporte para leitura de várias formas de sistemas totalitários, possibilitando sua superação e abrindo novos espaços para o ser-assim de cada um, vencendo o individualismo e gerando condições para uma real vivência da individualidade. E o aluno André Rodrigues dos Santos aborda um tema bastante crucial para o sucesso do processo evangelizador. Sem uma boa administração dos seus bens temporais, a Igreja pode perder muito tempo com burocracias desnecessárias, comprometendo sua missão principal – a evangelização.

Suscitar o gosto pela leitura é também um dos escopos da Revista Horizonte Teológico e, por isso, recensões serão sempre bem-vindas. O professor de liturgia Joaquim Fonseca nos abre o apetite para a leitura de “O segredo dos ritos”, da conhecida liturgista Ione Buyst. Como no magnífico diálogo da raposa com o principezinho, do texto de Exupèry, a autora do livro nos ajuda a mergulhar na riqueza dos ritos. Quando a raposa sugere ao principezinho a necessidade de ritos, este lhe indaga: “Que é um rito?” Ao que a raposa responde: “É uma coisa muito esquecida. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!”

Vamos, portanto, à leitura deste número de “Horizonte Teológico” não com o espírito de repetir uma mesmice, mas com o gosto de fomentar um rito que nos torna sempre novos!

 

Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

Revista Horizonte Teológico – 20 (1,4 MB)

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