Editorial

O MISTÉRIO PASCAL DE CRISTO:
CENTRO DE NOSSA FÉ E NOSSA VIVÊNCIA CRISTÃ

Este número da Revista Horizonte Teológico está recheado de bons e inéditos artigos. Impossível para um presbítero celebrar a Eucaristia sem mudar seus sentimentos e sua praxe depois de ler o artigo profundo do Pe. Taborda. Ao tratar da recepção da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, ele deixa claro que não se trata apenas de acolher reformas exteriores, mas de perceber e acatar uma nova teologia que o texto conciliar sobre a liturgia traz consigo. Pe. Taborda, porém, afirma categoricamente:

Faltava à maioria do clero e do povo cristão o horizonte teológico para compreender com profundidade o que estava acontecendo.

— Pe. Taborda

Decorrem daí as maquiagens realizadas na rubrica liturgia, tão longe de perceber o que de fato estava em jogo: uma nova compreensão da liturgia teologicamente falando. Diante dos arrombos litúrgicos atuais, com tantas missas adjetivadas (show, de cura e libertação, da misericórdia e outras), o autor nos desafia a voltar ao autêntico espírito do Vaticano II e viver a liturgia em seu sentido teológico, onde o mistério pascal de Cristo emerge como centro de nossa fé e nossa vivência cristã.

Hoje, muito se fala da experiência pessoal do encontro com Jesus Cristo como base e alicerce para uma fé autêntica e convincente. Nada melhor do que mergulhar na experiência de quem fez esse percurso com radical profundidade: Santa Teresa de Ávila. Para isso, somos ajudados pela reflexão do Pe. Paulo Sérgio Carrara, que apresenta Teresa de Ávila como mestra da oração, como aquela que nos orienta numa divina mistagogia. Fala-se muito da Lectio Divina, com seus quatro degraus, que nos ajuda a ler as Sagradas Escrituras, aproximando-nos da experiência dos hagiógrafos e de tantos que estão por detrás da Palavra revelada. Pe. Carrara nos apresenta os quatro graus de oração na perspectiva de Teresa de Ávila, que podem muito bem se associar aos quatro degraus da Lectio Divina, nos colocando num caminho de busca de uma união mais perfeita com Deus. O método de oração de Teresa de Ávila nos descortina um itinerário que, segundo o Pe. Carrara, é um caminho mistagógico que se dá na oração e nos leva a uma total entrega a Deus, na mais absoluta disponibilidade a seu querer, à ação de seu Espírito.

Na América Latina se desenvolveu um método bastante rico de aproximação do povo ao Deus que caminha na história e assume os compromissos de libertação do Seu povo, no meio das ambiguidades e contradições do dia a dia: a romaria. Na Prelazia de São Félix do Araguaia, tendo o bispo-profeta Pedro Casaldáliga à frente, essa romaria ganhou a marca da celebração da memória dos mártires da caminhada. Mártires como Pe. João Bosco Burnier e Dom Oscar Romero são sempre lembrados como testemunhos radicais de entrega da vida pela causa do povo. Conhecemos melhor essa experiência ao ler o texto de Samuel Vilaça, relatando sua participação na mais recente romaria dos mártires da caminhada, em 2012. Samuel fala de Pedro Casaldáliga com muita propriedade, pois o bispo-prelado de São Félix foi o foco de sua dissertação de mestrado.

O compromisso com os despossuídos marcou definitivamente a história da Igreja na América Latina e no Brasil. Esse enfoque levou Antonio Manzato a revisitar a obra do grande escritor Jorge Amado e a perceber a profunda sintonia do escritor baiano com a alma do brasileiro e, sobretudo, com a alma daqueles que não contam para a sociedade. Fazendo a relação entre a religião, a teologia e a cultura, Manzato mostra que Jorge Amado expressa em suas obras uma concepção de religião que coaduna com as perspectivas da teologia da libertação, na qual a religião é vista como meio de superação das injustiças, numa perspectiva clara de opção pelos deserdados da história.

É possível adequar a formação dos presbíteros tendo como foco a subjetividade hipermoderna, tão característica das novas gerações? Esse é o enfoque de Ildomar Danelon, cuja primeira parte de sua reflexão publicamos neste número. O conceito de hipermoderno pode ser uma maneira de superar o enfoque de pós-moderno, pois na verdade o que vivemos é o superlativo da modernidade e não tanto sua substituição.

Em profunda sintonia com o texto de Ildomar está o de Willian Fausto Lourenço, pois a hipermodernidade é discutida em sua monografia (orientada pela Professora Helena Contaldo) no enfoque da comunicação publicitária, com seus meios e objetivo: sedução, imagem e consumo. Lourenço é enfático ao dizer que o sujeito hipermoderno é cárcere do sistema de consumo, embora se sinta enganosamente livre. Portanto, lendo os dois artigos, o de Ildomar e o de Willian Lourenço, pode-se perceber que o sujeito que se apresenta para a formação presbiteral é esse hipermoderno consumidor contumaz.

Concluindo este número da Revista Horizonte Teológico temos resenhas de duas obras interessantíssimas: uma bem pequena, do irlandês Terry Eagleton, com um tema bastante atual e provocante: o debate sobre Deus. De fato, Deus está outra vez na berlinda. Depois do decreto de alguns liberais que matavam e pensavam ter sepultado a religião e Deus, vemos que tudo está aí bem vivo e falante nos quatro cantos do mundo. Eagleton se serve de uma ironia pedagógica para desafiar a esses liberais, convocando-os para um debate sério e profundo. Já a obra póstuma de Jose Comblin, a segunda resenha, nos mostra que esse teólogo belga radicado no continente latino-americano e, sobretudo, no Brasil continua vivo depois de sepultado. Dando continuidade a sua verve profética, essa obra póstuma – O Espírito Santo na Igreja – de Comblin deixa claro que a verdadeira tradição evangélica e o Espírito Santo não permitem sossegar aqueles eclesiásticos que gostariam de adequar a Instituição Católica às suas ideologias, fazendo da Igreja uma serva do poder. E Comblin nos ajuda a perceber para que serve a religião cristã que, sendo obra humana, tem a missão de transmitir com autenticidade a fé, a Boa Nova anunciada e tornada presente na história por Jesus de Nazaré.

Espero que nossos leitores façam um passeio agradável pelos artigos deste número da Revista Horizonte Teológico e que nos ajudem a divulgar esta publicação, aumentando o contato do Instituto Santo Tomás de Aquino com a sociedade civil.

Pe. Manoel Godoy

Diretor Executivo do ISTA

Revista Horizonte Teológico – 23 (1,4 MB)

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