Editorial

AS MULTIFORMAS DO SABER

Multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdiciplinari-dade são quatro palavras relacionadas hoje ao mundo da educação que tornam o universo acadêmico bastante complexo e desafiador. Qualquer disciplina hoje exige a busca de várias interfaces para que possa contextualizar e operacionalizar o objeto em questão. Igual tarefa está a exigir das ciências estudadas no Instituto Santo Tomás de Aquino: filosofia e teologia. Passada a era dos manuais, esses dois campos sofreram uma verdadeira ressemantização, cujas consequências estão longe de mostrar seu ponto final. Se se ganha do lado da amplitude da reflexão, corre-se o risco, por outro, de não se ter claro o objeto de cada disciplina. Será possível um termo intermédio, que nos ajude a dar consistência ao saber filosófico e teológico no emaranhado de tantas ciências com as quais somos hoje impelidos a dialogar? Lendo este número da Revista Horizonte Teológico, percebe-se a necessidade, cada vez mais urgente, de uma interlocução constante da filosofia e da teologia com as ciências da linguagem: semiótica, filologia e outras. Desafio não é palavra feia. Muito pelo contrário. Serve de estímulo e abertura às realidades que nos transcendem. Assim é que convido a todos a fazerem essa viagem pela variedade de artigos e temas que compõem este volume de nossa Revista Horizonte Teológico

Caros leitores, começamos esta edição fazendo uma correção ao número anterior, onde fizemos aceno ao artigo de Ildomar Danelon no editorial e o omitimos do corpo da Revista. Dizíamos na ocasião: É possível adequar a formação dos presbíteros tendo como foco a subjetividade hipermoderna, tão característica das novas gerações? Esse é o enfoque de Ildomar Danelon, cuja primeira parte de sua reflexão publicamos neste número. O conceito de hipermoderno pode ser uma maneira de superar o enfoque de pós-moderno, pois na verdade o que vivemos é o superlativo da modernidade e não tanto sua substituição.

Os dados estatísticos da FGV traziam um dado muito significativo sobre a crença e a questão de gênero: “Os homens são mais fiéis às instituições religiosas a que pertencem do que as mulheres”. A professora Solange apresenta um corte bíblico e outro social na crença feminina e coloca a questão em debate, sobretudo quanto ao posicionamento oficial do magistério eclesiástico. Seria interessante que algum leitor de nossa revista pudesse escrever sobre o homem na Igreja.

Num tempo em que se questiona e muito sobre a linguagem e a comunicação das Celebrações Eucarísticas, fazer o resgate histórico e teológico da Anáfora II pode ajudar a dar mais seriedade a todas as celebrações. Na verdade, qualquer tentativa de reforma litúrgica deve passar pelo crivo da Tradição, para não se jogarem fora verdadeiros tesouros em nome de uma tentativa de adequação aos tempos atuais. Daí a pertinência do texto de Vanderson de Sousa Silva.

A reflexão sobre a exclusão social, tendo como objeto a obra literária vencedora do prêmio Jabuti de Literatura de 2001, Inferno, de Patrícia Melo, à luz do pensamento de Hannah Arendt, e a condição existencial da população de rua forma um quadro muito significativo para um entendimento mais claro da situação social brasileira hoje. O doutorando Fabiano Victor de Oliveira Campos consegue nos afetar com seu artigo e nos provoca a uma resposta pessoal à situação de exclusão na sociedade atual.

Poder inteirar-se de debates filosóficos atuais, tendo como objeto questionador a questão da unicidade e pluralidade do ser, nos leva a rever conceitos fundamentais que temos da nossa própria existência e dos processos sociais. Daniel Nazaré do Prado, doutorando em filosofia, nos ajuda a fazer esse trajeto, reportando-se ao pensamento do filósofo contemporâneo William Desmond. A temática da linguagem também é abordada de forma oportuna e atual. Por meio da noção de metaxologia, Desmond, citado por Prado, abre uma perspectiva bastante intrigante quando afirma: “o nosso ser é essencialmente intermediário, ou seja, meio caminho entre a inteireza totalizadora, representada pela opção hegeliana, e a pluralidade descontínua da opção wittgensteiniana”.

Completando esse número da Revista Horizonte Teológico temos duas resenhas interessantes. Pe. Cleto Caliman visita a obra de Moisés Sbardelotto – “E o Verbo se fez bit”, de maneira crítica e pertinente. E o aluno João Paulo nos apresenta uma instigante chave de leitura do livro do Pe. Henrique de Lima Vaz, sobre a experiência mística e a filosofia.

Cremos que este número da Revista Horizonte Teológico deverá ser devorado com muito interesse por todos os que se debruçam a filosofar e a teologar nos dias de hoje. A interdisciplinaridade entre filosofia e teologia continua sendo o chão básico da Revista do Instituto Santo Tomás de Aquino.

Pe. Manoel Godoy
Diretor Executivo do ISTA

 

Revista Horizonte Teológico nº 24 (1,4 MB)

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